{"id":4354,"date":"2023-09-25T10:37:06","date_gmt":"2023-09-25T13:37:06","guid":{"rendered":"https:\/\/suburbionoar.com.br\/?p=4354"},"modified":"2023-09-25T10:37:08","modified_gmt":"2023-09-25T13:37:08","slug":"desinformacao-sobre-vacinas-se-comporta-como-epidemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/suburbionoar.com.br\/index.php\/2023\/09\/25\/desinformacao-sobre-vacinas-se-comporta-como-epidemia\/","title":{"rendered":"Desinforma\u00e7\u00e3o sobre vacinas se comporta como epidemia"},"content":{"rendered":"\n<p>A enxurrada de desinforma\u00e7\u00e3o que passou a circular na pandemia de covid-19 com mais for\u00e7a deixou sequelas, impactou servi\u00e7os de sa\u00fade e se comporta como uma epidemia, avaliaram pesquisadores na Jornada Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es, realizada em Florian\u00f3polis, pela Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00f5es (SBIm). A diretora da SBIm e integrante do grupo consultivo da Vaccine Safety Net da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, Isabela Ballalai, compara a desinforma\u00e7\u00e3o \u00e0 uma doen\u00e7a de f\u00e1cil transmiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A desinforma\u00e7\u00e3o pode causar doen\u00e7as, pode matar, deve ser considerada uma doen\u00e7a e merece preven\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, a\u00e7\u00f5es planejadas. A gente precisa acompanhar, diagnosticar. Contra um surto de sarampo, a gente n\u00e3o tem que planejar? \u00c9 a mesma coisa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Organizar essa resposta se torna ainda mais importante porque movimentos antivacinistas se tornaram mais estruturados na Am\u00e9rica Latina com a pandemia de covid-19, recebendo inclusive recursos transnacionais. No caso do Brasil, esses grupos chegaram a contar tamb\u00e9m com apoio do governo de Jair Bolsonaro, que deu voz a antivacinistas em uma audi\u00eancia p\u00fablica promovida pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade sobre a vacina\u00e7\u00e3o pedi\u00e1trica contra a covid-19.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isabela Ballalai chama a aten\u00e7\u00e3o para o planejamento de uma comunica\u00e7\u00e3o que chegue at\u00e9 as pessoas, uma vez que pacotes de internet mais baratos muitas vezes dificultam o acesso a p\u00e1ginas oficiais e fontes confi\u00e1veis de informa\u00e7\u00e3o, mas garantem a comunica\u00e7\u00e3o por redes sociais, local em que conte\u00fados virais de desinforma\u00e7\u00e3o circulam fortemente. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Os picos de desinforma\u00e7\u00e3o e hesita\u00e7\u00e3o se d\u00e3o quando h\u00e1 a divulga\u00e7\u00e3o de uma nova informa\u00e7\u00e3o, uma nova pol\u00edtica de sa\u00fade, ou relato de poss\u00edvel problema de sa\u00fade&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsses grupos s\u00e3o muito estruturados e t\u00eam dinheiro\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estresse vacinal<\/strong><br>Um exemplo emblem\u00e1tico desse padr\u00e3o foi a campanha de desinforma\u00e7\u00e3o contra a vacina do HPV no Acre, entre 2014 e 2019. A vacina \u00e9 indicada para adolescentes de 9 a 14 anos, e \u00e9 de grande import\u00e2ncia para prevenir casos de c\u00e2ncer, como o c\u00e9rvico-uterino. Epis\u00f3dios de rea\u00e7\u00f5es \u00e0 vacina, chamados de estresse vacinal, entretanto, levaram a uma forte campanha de desinforma\u00e7\u00e3o que atribuiu falsamente \u00e0 vacina o risco de causar paralisias e epilepsia.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra Renato Marchetti, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo, explica que rea\u00e7\u00f5es de estresse p\u00f3s-vacina\u00e7\u00e3o t\u00eam como gatilhos dor, medo e ansiedade e podem se proliferar quando uma pessoa v\u00ea imagens ou testemunha outra pessoa sofrendo dessa rea\u00e7\u00e3o. Esses sintomas afetam principalmente adolescentes do sexo feminino, s\u00e3o involunt\u00e1rios e se parecem com sintomas neurol\u00f3gicos, mas suas causas s\u00e3o psicossociais.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma parte importante para o desfecho do estresse vacinal depende do conhecimento das pessoas que sofreram o problema, dos familiares, dos m\u00e9dicos e de outras pessoas da sociedade sobre o assunto. \u00c9 preciso saber que existe a rea\u00e7\u00e3o de estresse vacinal, que aquilo n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a desconhecida, e, sim, um problema que pode acontecer tamb\u00e9m devido a outros tipos de estresse. A divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das rea\u00e7\u00f5es psicog\u00eanicas seria um ponto importante&#8221;, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A gente conviveu com muitos m\u00e9dicos que atenderam \u00e0s meninas no Acre, e a maior parte deles n\u00e3o eram pessoas mal intencionadas. Eles [m\u00e9dicos] tinham d\u00favidas sobre o que estava acontecendo porque essa rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem conhecida nem entre os m\u00e9dicos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00f5es como essa s\u00e3o registradas desde a d\u00e9cada de 1990, com diferentes vacinas, e principalmente durante a imuniza\u00e7\u00e3o escolar. Com a divulga\u00e7\u00e3o de imagens e relatos pela imprensa ou grupos contr\u00e1rios \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o, esses casos se alastram.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que ocorreu no Acre, em que imagens de adolescentes desmaiadas causaram forte temor e levaram at\u00e9 mesmo profissionais de sa\u00fade a contraindicarem a vacina\u00e7\u00e3o. O desconhecimento dos profissionais da imprensa e da sa\u00fade sobre as rea\u00e7\u00f5es de estresse vacinal agravaram a situa\u00e7\u00e3o. O temor e o pico de informa\u00e7\u00e3o antivacina, explica Marchetti, causa um fen\u00f4meno chamado hesita\u00e7\u00e3o vacinal reativa transmiss\u00edvel, um surto de hesita\u00e7\u00e3o vacinal. No caso do Acre, a cobertura da vacina HPV chegou a menos de 1%.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Toda vez que ocorre um evento com repercuss\u00e3o, voc\u00ea tem uma infodemia, uma propaga\u00e7\u00e3o aguda que responde \u00e0s mesmas modelagens matem\u00e1ticas de uma epidemia de causas biol\u00f3gicas&#8221;, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>At\u00e9 pediatras<\/strong><br>A desinforma\u00e7\u00e3o sobre as vacinas covid-19 pode ter aumentado a hesita\u00e7\u00e3o vacinal (relut\u00e2ncia ou recusa) at\u00e9 mesmo entre pediatras, indica um estudo ainda em andamento com quase mil m\u00e9dicos brasileiros dessa especialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio de entrevistas em que os profissionais declaravam concordar ou discordar de afirma\u00e7\u00f5es, os pesquisadores detectaram uma forte correla\u00e7\u00e3o entre a cren\u00e7a de que as vacinas contra a covid-19 ainda s\u00e3o experimentais e a desconfian\u00e7a de que as vacinas n\u00e3o s\u00e3o seguras de forma geral.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa \u00e9 resultado de uma parceria entre a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Instituto Quest\u00e3o de Ci\u00eancia (IQC), e busca produzir material direcionado \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o desses profissionais, recuperando sua confian\u00e7a nas imuniza\u00e7\u00f5es. Foram ouvidos 982 pediatras &#8211; 90% fizeram resid\u00eancia m\u00e9dica, 60% declararam que atuam nas redes p\u00fablica e privada e 41% estavam com o calend\u00e1rio vacinal em dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Coordenador do trabalho e diretor de educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do IQC, Luiz Gustavo de Almeida apresentou que os pediatras se posicionaram sobre as seguintes afirma\u00e7\u00f5es: &#8220;as vacinas covid-19 em pediatria ainda podem ser consideradas experimentais&#8221;; &#8220;a vacina covid-19 de RNAm pode acarretar algum risco de modifica\u00e7\u00e3o do DNA da crian\u00e7a&#8221;; e &#8220;a vacina\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as \u00e9 fundamental, pois est\u00e1 \u00e9 uma doen\u00e7a importante na pediatria que pode levar a casos graves&#8221;. As duas primeiras afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o falsas e frequentemente usadas em campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a terceira \u00e9 verdadeira e comprovada por estudos cient\u00edficos e autoridades sanit\u00e1rias de diversos pa\u00edses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das frases sobre as vacinas contra a covid-19, tamb\u00e9m foram apresentadas outras como &#8220;eu tenho total confian\u00e7a de que as vacinas s\u00e3o seguras&#8221;; &#8220;a vacina tr\u00edplice viral causa autismo&#8221;; e a &#8220;a vacina HPV administrada na adolesc\u00eancia pode favorecer o in\u00edcio da vida sexual&#8221;. As duas \u00faltimas frases s\u00e3o mentiras usadas pelo movimento antivacinista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A covid abalou a confian\u00e7a em todas as outras vacinas. Essa \u00e9 a mensagem final que a gente tem no artigo. Por conta das vacinas da covid, alguns pediatras acabaram perdendo a confian\u00e7a nas outras vacinas, como a de HPV&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Almeida disse que a pesquisa constatou forte coes\u00e3o entre todas as respostas contr\u00e1rias \u00e0 confian\u00e7a nas vacinas, mostrando que a desconfian\u00e7a propagada contra as vacinas covid-19 pode ter contaminado as cren\u00e7as sobre outros imunizantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resid\u00eancia m\u00e9dica<\/strong><br>O estudo tamb\u00e9m pode indicar que profissionais que fizeram resid\u00eancia m\u00e9dica est\u00e3o menos sujeitos a hesitar na recomenda\u00e7\u00e3o de vacinas para seus pacientes. Os dados preliminares mostram que, entre o grupo minorit\u00e1rio que respondeu \u00e0 entrevista demonstrando desconfiar das vacinas, a caracter\u00edstica mais comum era a aus\u00eancia de resid\u00eancia m\u00e9dica na forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Almeida explicou que os pesquisadores ainda est\u00e3o debru\u00e7ados sobre os dados para interpret\u00e1-los, mas as respostas j\u00e1 permitiram identificar dois perfis: um que concorda fortemente que as vacinas s\u00e3o confi\u00e1veis, e outro que se declara neutro em rela\u00e7\u00e3o a isso ou discorda parcial ou integralmente. Esse segundo grupo somou cerca de 10% dos respondentes.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Almeida, os pediatras est\u00e3o entre o grupo m\u00e9dico que mais confia nas vacinas. Ele afirmou que a maioria dos que responderam o question\u00e1rio \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o. &#8220;Teve esses 10% que t\u00eam uma outra vis\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 a mais prevalente. E a ideia de formar esses perfis \u00e9 munir [com informa\u00e7\u00f5es] todos que t\u00eam d\u00favidas e n\u00e3o acreditam nas vacinas&#8221;. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os que concordam fortemente que as vacinas s\u00e3o seguras, o perfil foi de profissionais que fizeram resid\u00eancia m\u00e9dica, n\u00e3o t\u00eam mestrado nem doutorado e atuam nas redes p\u00fablica e privada. Almeida afirma que uma hip\u00f3tese dos pesquisadores \u00e9 que a viv\u00eancia dos servi\u00e7os de sa\u00fade durante a resid\u00eancia m\u00e9dica refor\u00e7a a confian\u00e7a de que as vacinas s\u00e3o seguras e importantes para prevenir doen\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Isso \u00e9 algo que ainda estamos discutindo. Quem passou direto da faculdade para o atendimento talvez n\u00e3o teve esse contato principalmente com o atendimento na rede p\u00fablica&#8221;, diz. &#8220;Quem n\u00e3o fez resid\u00eancia pode ter visto nos jornais, mas n\u00e3o viu crian\u00e7as sofrendo em hospitais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Varela Net <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A enxurrada de desinforma\u00e7\u00e3o que passou a circular na pandemia de covid-19 com mais for\u00e7a deixou sequelas, impactou servi\u00e7os de sa\u00fade e se comporta como uma epidemia, avaliaram pesquisadores na Jornada Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es, realizada em Florian\u00f3polis, pela Sociedade Brasileira de Imuniza\u00e7\u00f5es (SBIm). 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